cicatriz

A propósito de curas milagrosas de celulites e cicatrizes

apologética cicatrizA propósito de curas milagrosas de celulites e cicatrizes

O que acontece quando o anjo e não Jesus Cristo é quem opera?

Rev. José do Carmo da Silva

Passadas estas coisas, havia uma festa dos judeus, e Jesus subiu para Jerusalém. Ora, existe ali, junto à Porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betesda, o qual tem cinco pavilhões. Nestes, jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos [esperando que se movesse a água. Porquanto um anjo descia em certo tempo, agitando-a; e o primeiro que entrava no tanque, uma vez agitada a água, sarava de qualquer doença que tivesse.] Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos. Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim há muito tempo, perguntou-lhe: Queres ser curado? Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada; pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim. Então, lhe disse Jesus: Levanta-te, toma o teu leito e anda. Imediatamente, o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar. E aquele dia era sábado. (João 5:1-9)

Sempre que leio os Evangelhos fico prestando atenção nas atitudes de Jesus de Nazaré. Faço isso por crer que Ele é o modelo para a vivência e pregação do verdadeiro Evangelho.

Uma das passagens neotestamentárias que tenho como desafiante para minha vida e ministério é esta que se encontra na primeira epístola de João no capitulo 2.6, “Aquele que diz que permanece nele, esse, deve também andar como Ele andou.” E Pedro nos diz em Atos dez que, “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos, os oprimidos do diabo, por que Deus era com Ele”.

Entendo que assim como o Espírito Santo estava sobre Jesus de Nazaré, também esta sobre nós, que assim como Deus o ungiu, Cristo nos escolheu e enviou como ministros da reconciliação entre Deus e os homens. Sim, só Jesus é o Cristo, o Ungido de Deus, e segundo Paulo na crucificação, Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo mesmo, não mais considerando os pecados dos homens como razão de acusação contra eles. Eis pois a mensagem que pregamos. II Cor. 5.18

Em minha leitura bíblica em busca de aprender com o Mestre, na expectativa de pela graça andar como Ele andou sempre fiquei entusiasmado com a passagem de João 5: 1 a 9. João narra que Jesus ao subir para Jerusalém em uma época de festa, se dirigiu a um lugar nada festivo. Um local onde havia inúmeras pessoas sofrendo de diversos tipos de enfermidades.

Era um lugar onde a alegria de um era a tristeza de outros, pois ali acontecia um milagre que não se pautava na graça, mas sim no mérito, pois quando o anjo descia somente quem conseguisse chegar primeiro ao tanque recebia a cura. Imaginemos a situação de tal local, devia cheirar mal, pois ali havia pessoas com todo tipo de enfermidades, desde leprosos a aleijados. João diz que no local existiam pessoas que mal podiam se locomover, o que me leva a crer que certamente ali mesmo faziam suas necessidades fisiológicas.

Como os religiosos judeus não se aproximavam de doentes, principalmente leprosos, é certo de que nem sequer passavam perto de tal lugar, no qual devia operar um estado caótico, uma desorganização e imundície total.

O homem a quem Jesus se dirige estava doente ha trinta e oito anos. Tanto a Bíblia de Jerusalém como A TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia não dizem qual era a enfermidade do homem, mas a NVI diz que ele era paralitico.

Em tal situação, por ser paralitico tal homem já estava em desvantagem, pois imagino que quando a água começava a se mover ali virava um verdadeiro tumulto, uma multidão alvoroçada correndo para se jogar nas águas e receber o milagre.

Mas somente um conseguia a benção, ali vigorava a lei do mais forte, do mais ágil, pois só o mais rápido que chegasse primeiro a água, ou tivesse alguém que o jogasse nela é que era abençoado, os demais teriam que aguardar o próximo mover das águas, a próxima visita do anjo. Imagine a expectativa e a angústia reinantes no local, o qual deveria ser lugar de misericórdia.

Acho interessante que segundo a TEB ao ser informado que o homem estava há muito tempo naquela situação, Jesus se dirige a ele e pergunta se ele quer ser curado, mas o paralítico ao invés de responder com um sim ou com um não, começa a falar de sua solidão e dificuldade de chegar a tempo até a água e receber o milagre.

Talvez ele tenha pensado que Jesus seria a pessoa que o apanharia no colo e o mergulharia no tanque, razão pela qual sequer respondeu a pergunta a ele dirigida: Queres ser curado? Vejamos a resposta dele: “Senhor, eu não tenho ninguém para mergulhar-me na piscina no momento em que água começa a se agitar; e, no tempo que levo para chegar lá, outro desce antes de mim. ” João 5: 7.

Apesar de não responder o que lhe fora perguntado, do fato de que sequer conhecia a Jesus, de não ter pedido e nem ter manifesto fé, Jesus se apiedou dele e ordenou que se levantasse, tomasse a maca e andasse. O aleijado naquele momento acreditou, obedeceu e foi curado.

Mas o que vejo de intrigante no texto e que parece entrar em contradição com a narrativa de Pedro em Atos dez trinta e oito, a qual diz que Jesus fazia o bem e curava a todos, é que não há registro de que Jesus operou outros milagres ali.

Já ouvi pregações onde se pergunta por qual razão Jesus só curou aquele homem. Penso que a resposta esta no próprio diálogo do paralítico com Jesus, pois o aleijado diz: “eu não tenho ninguém”. A desvantagem dele aumenta pelo fato de que ele não tinha ninguém. Creio que Jesus naquele momento deu prioridade ao mais necessitado, ao desamparado, a quem há muito sofria não só do mal físico, mas também da solidão, do abandono, do esquecimento.

A narrativa de Betesda entra em contraste com o que temos visto nos dias de hoje e antes de narrar à razão pela qual faço tal afirmação, quero deixar claro que não descreio do poder de Deus, pois já fui usado por Ele como instrumento de cura ao orar por pessoas, bem como na libertação de pessoas realmente possuídas por demônios.

Creio no Evangelho pleno e acredito na contemporaneidade dos dons. Creio que enquanto o Evangelho necessitar ser pregado, o Espírito Santo continuará a revestir os cristãos com dons ordinários e extraordinários para a participação na Missão de Deus em seu propósito de salvar o mundo. Inclusive uma vez na Tarde da Benção em Dourados oramos por um homem aleijado que repentinamente começou andar.

Há poucos meses em uma quinta feira de oração, uma irmã foi curada de sérios problemas renais, dos quais há muito sofria. Não sou cessacionista e creio que os dons do Espírito estão sobre o Corpo de Cristo e não é privilégio do pentecostalismo, mas sim de toda a Igreja que confessa a Jesus Cristo e clama por um revestimento de poder tendo em vista a pregação do Evangelho e o anuncio do Reino de Deus.

Dias desses um carro de som anunciava pelas ruas de Fátima do Sul que certo homem de Deus estaria realizando uma grande cruzada de milagres na cidade. O carro alardeava que tal homem era grandiosamente usado em curas e revelações.

Como o local do evento era próximo a minha casa, decidi ir até lá. Devido à chuva, cheguei um pouco atrasado, e logo ao chegar notei duas senhoras aleijadas, ambas com deficiência nas pernas. Logo que as avistei, pensei: Senhor será que estas senhoras voltarão curadas, andando perfeitamente para suas casas, assim como o paralitico do tanque de Betesda? Abençoe que sim, que nesta noite possamos ver sinais e prodígios se manifestando neste lugar, e que elas sejam agraciadas.

O culto prosseguia, teve apresentações, uma breve explanação da Palavra, a qual prometia aparecer dinheiro na conta dos que acreditassem, desaparecimento de dívidas, ganhar carros caros, bicicletas que dariam lugar a motos Suzuki, fuscas que dariam lugar a caminhonetes hilux… E por fim chegou o momento das revelações e milagres, mas que só aconteceriam na vida de quem tivesse fé.

O pregador anunciou que havia lá fora nove anjos que acompanhavam o ministério dele, começou a orar, falou um pouco da vida dele dando o testemunho de sua conversão. Pessoas foram chamadas a frente e recebiam revelações de enfermidades, mas ao mesmo tempo já eram avisadas que no momento em que Jesus revela, ele já cura também.

Mas o que me chamou atenção foi quando o pregador perguntou para as mulheres quem ali tinha celulite. Ninguém se manifestou ele fez um gracejo e anunciou a entrada dos anjos operadores de celulite, e que faziam desaparecer todo tipo de cicatrizes. De repente umas irmãs montaram lá na frente um espaço com lençóis e algumas mulheres foram chamadas a irem lá, pois Jesus iria operar, fazendo desaparecer todo tipo de cicatrizes, de cesarianas, estrias e afins. Fez um novo apelo e algumas mulheres se levantaram.

O pregador apontando o dedo para o povo foi dizendo e chamando algumas mulheres dentre as que se levantaram: você, você e você, venham aqui.

Algumas mulheres foram para lá, umas para receberem a cura, outras para testificar o milagre. Enquanto elas estavam lá dentro o pregador orientava o povo: “manda glória para cima igreja, que Deus manda o milagre. estou vendo um anjo passar agora pelo corredor, ele vai operar, manda glória para cima…”

E perguntava, desapareceu? E as mulheres olhando as cicatrizes na barriga das outras diziam: esta clareando, está clareando.

E lá do meu lugar, sentado, eu me fazia às seguintes perguntas: Senhor, eu sei que o Senhor é Soberano, e não deve satisfação a mim, mas por qual motivo, com pessoas aleijadas aqui no recinto, pessoas que vieram com fé de que iriam receber um milagre de cura, o Senhor se apequena tanto, se submetendo a vaidade humana e está fazendo desaparecer cicatrizes, que sequer são doenças?

Senhor por acaso Jesus de Nazaré daria prioridade a estar curando celulites, coisas que em nada atrapalha a vida cotidiana das pessoas em detrimento a atender aquelas duas senhoras visivelmente aleijadas e que sequer são notadas pelo pregador? Senhor Deus, eu não sinto aqui neste lugar a presença sua, não vejo aqui o Jesus que deu prioridade a um homem que jazia trinta e oito anos enfermo.

Senhor, cicatrizes na barriga, que ficam escondidas não são doenças, tais como o problema daquelas duas senhoras aleijadas que sequer foram chamadas para irem à frente. Não esta acontecendo aqui o oposto do que Jesus fazia, acolher ao mais necessitado?

Conforme me questionava, uma angustia foi tomando conta de meu ser. De repente ouvi o pregador falar: O anjo esta operando esta curando… O anjo esta operando…. a cicatriz esta clareando.

Ecoou no meu ouvido a afirmação: o anjo, o anjo está curando…

Então entendi a razão pela qual, o pregador desde o inicio anunciava que o ministério dele é acompanhado por nove anjos operadores de milagres.

Então me lembrei que lá no tanque de Betesda, diferentemente de Jesus de Nazaré, o anjo que movia a água não dava prioridade ao mais necessitado, mas sim a quem por mérito chegasse primeiras as águas. Então convencido de que não era Jesus operando naquele lugar, me levantei e fui embora para casa.

E as mulheres aleijadas ficaram um pouco mais até o termino, e sequer foram notadas, enquanto outras voltaram para casa com suas cicatrizes clareadas sob seus vestido ou blusas, pois quando anjos operam a comando de homens, o prioritário se torna secundário, os que realmente sofrem não são notados e o que é banal se torna show.

Autor: Reverendo José do Carmo da Silva, crente no poder de Deus, mas incrédulo quanto às prioridades de homens e anjos.

Fonte: http://www.brasilmetodista.com.br/

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