DOAÇÃO E TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS HUMANOS

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INTRODUÇÃO

As discussões religiosas sobre doação de órgãos humanos para transplante, depende bastante de cada grupo religioso. Daí, poder-se-á perqüirir sobre o que pensam os cristãos católicos, os cristãos evangélicos, os espíritas, os budistas e outros. Por isso, estamos enfocando o assunto do ponto-de-vista da Bíblia. E a grande questão é: Que diz a Bíblia sobre doação de órgãos humanos para transplante?

De modo geral, podemos dizer que não há nenhum texto bíblico que proíba ou que permita doação de órgãos humanos, uma vez que a prática era totalmente desconhecida nos tempos bíblicos. É verdade que sempre há aqueles que gostam de encontrar nas entrelinhas da Bíblia profecias e previsões sobre situações futuras, mas não há na Bíblia nada, pelo menos especificamente, nem a favor nem contra à doação de órgãos humanos.
ALGUNS POSSÍVEIS TEXTOS DESFAVORÁVEIS À DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Há alguns textos que, por analogia, poderiam ser utilizados para contrariar a doação de órgãos. Vejamos alguns deles:

1. 1 Cor. 6.19-20. Este texto, dentre outras afirmações sobre nós, fala que o nosso corpo pertence a Deus. Isto poderia dar a entender que, pertencendo o nosso corpo a Deus, nós não poderíamos dispor dele, por nós mesmos.

No entanto, nos melhores manuscritos originais da Bíblia, o verso 20 termina com a expressão: “glorificai a Deus no vosso corpo”. Nada diz o corpo pertence a Deus ou a nós. Mas mesmo admitindo que a expressão é válida, pois aparece nas nossas Bíblias tradicionais, podemos argumentar que o corpo pertence a Deus, mas nos foi dado para ser por nós administrado e, doar um órgão para ajudar alguém a continuar vivendo, quando nós não temos mais condições de vida, pode significar apenas um empréstimo, pois na ressurreição, se for o caso, o órgão voltará para o seu devido lugar, pela infinita sabedoria de Deus.

2. Rom. 8.23. Aqui Paulo fala especificamente da ressurreição dos mortos. Todos nós aguardamos a redenção do nosso corpo e, poderíamos imaginar que Deus quer o nosso corpo completo para aquele dia.

A respeito deste assunto, podemos questionar alguns pontos. Primeiro, como aguardar um corpo completo, de pessoas que morreram em explosões, que despedaçaram a maioria dos seus órgãos? Segundo, e as pessoas que foram? (a Igreja católica não admite a cremação, talvez por causa deste princípio). Terceiro, e as pessoas que foram mutiladas numa guerra e perderam membros inteiros de seus corpos, que ficaram totalmente distantes do local para onde vieram continuar a viver, e depois morreram? Quarto, e as pessoas que tiveram alguns órgãos doentes e os extirparam (como é o caso de alguns cegos, que literalmente extraíram os olhos, e de pessoas que extraíram um rim, ou outros órgãos?

3. 1 Tes. 5.23. Quase dentro da mesma idéia acima, aqui Paulo fala de conservar espírito, alma e corpo íntegros e irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas não se pode entender neste texto qualquer à doação de órgãos do corpo (para mantê-lo íntegro ou inteiro para a vinda de Cristo), pois a expressão inclui o espírito também e não se poderia pensar na divisão do espírito ou da alma. A idéia no presente texto é mais moral do que física ou material.

4. Marc. 9.42-50. O Senhor Jesus fala que é melhor alguém entrar na vida sem um olho ou sem um pé ou sem uma mão, do que tendo o corpo completo ir para o inferno. Alguém pode imaginar, por aqui, que uma pessoa que doe um membro, seja ele qual for, na ressurreição vai entrar aleijado no Céu. Na verdade, não é assim. O texto é figurado. Mesmo porque, Jesus não quer que ninguém saia por ai cortando mão, pé ou arrancando olho por causa de seus pecados, pois os nossos pecados são lavados e perdoados por Cristo. O que Cristo quer ensinar nesta passagem bíblica é o sacrifício de certas renúncias que temos que fazer para vivermos uma vida cristã santa.
O PROBLEMA DA RESSURREIÇÃO

Muitos religiosos contrariam, por exemplo, a cremação pois acham que isso dificultaria a ressurreição de seus corpos no último dia. Mas se lermos cuidadosamente o capítulo 15 da Primeira Carta aos Coríntios, vamos notar que não importa nada disso para a ressurreição: Paulo fala do grão que precisa morrer ( e o grão se desfaz totalmente) para que possa dar origem a uma planta.

Afinal de contas, quando Salomão diz em Ecl. 12.7 que o pó volta a terra, como era e o espírito volta a Deus, que o deu, nós entendemos que esse corpo vai se decompor totalmente. Apenas os ossos vão permanecer por muito tempo, mas todos os demais órgãos internos serão consumidos pela terra. Entendemos que, para Deus, no dia da ressurreição, não haverá nenhum problema, estejam onde estiverem as partes de um determinado corpo.

Uma boa ilustração disso é o célebre texto do “vale de ossos secos”, relatado em Ez. 37.1-14. Notem que era apenas um vale de ossos. Não diz que eram ossos de corpos inteiros, mas apenas ossos humanos. Não se sabe onde aqueles corpos perderam seus órgãos internos e externos e sua carne. Mas Deus mandou o profeta clamar aos ossos e eles viveriam, e ganhariam espírito, e tendões, e carne, e pele (veja os versos 5-6). Mais à frente, o texto diz que os ossos começaram a se ajuntar cada osso ao seu osso (v. 7). No verso seguinte, vieram tendões, e cresceram as carnes e estendeu-se a pele…. (v.8). Não se sabe de onde vieram essas partes daqueles esqueletos.

Mas, note-se, esta ilustração tem valor apenas parcial, pois aqui não se trata de uma ressurreição, no modelo do último dia, mas de uma “revivificação”. É importante entender que, quando Paulo fala de ressurreição do último dia, ele fala de “corpo espiritual”, em contraste com “corpo animal” (1 Cor. 15.44,46). E, fato muito importante aqui é inquirir se o tal “corpo espiritual”, como era o do Senhor Jesus depois da ressurreição, tinha órgãos à semelhança do “corpo animal”. Que aquele corpo ressurrecto tinha, mais ou menos a mesma forma, concluímos pela reação natural dos discípulos ao reconhecerem o Senhor Jesus ressurrecto e ao conviverem com ele por cerca de 40 dias. Sabe-se, por exemplo, que aquele corpo tinha o poder de entrar num recinto fechado (como que desmaterializando-se e materializando-se em questões de segundos – João 20.19-21).

Portanto, parece que não procedem as argumentações das dificuldades para a ressurreição. Deus não tem este tipo de problema.

A QUESTÃO DA VONTADE DE DEUS

Geralmente um cristão costuma considerar quatro estágios de compreensão na busca ou averiguação da vontade de Deus:

1. A Soberania de Deus. Deus é soberano e pode fazer de nós e conosco o que Ele quer. Assim, se Ele nos permite adoecer, é plano dEle. Ele nos fez, Ele é dono de nossas vidas. Como disse Jó, a respeito da perda de seus filhos e de seus bens: “O Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.21b).

Todavia, a soberania de Deus não se aplica ao campo do livre arbítrio do ser humano, principalmente para os cristãos que não adotam a teologia Calvinista. Assim, mesmo a despeito da soberania de Deus, entendemos que o ser humano pode dispor do seu corpo, de partes dele, e até da sua própria alma quando, por não querer aceitar a Cristo como salvador, determina o destino dela para a perdição (João 3.16-19).

2. As Declarações da Palavra de Deus. Muitas coisas estão postas para nós na Palavra de Deus, expressamente. Um exemplo é a lista dos dez mandamentos. Ademais, no Novo Testamento, há muitas declarações sobre o que o cristão pode e não pode fazer.

No entanto, não encontramos na palavra de Deus nada que proíba ou que permita ao cristão dispor do seu corpo. É bem verdade que o apóstolo Paulo, em Gal. 4.15, fala que os gálatas, se possível fora, arrancariam os seus próprios olhos e lhos dariam. Isso, talvez por algum tipo de problema oftalmológico que incomodava o apóstolo e que era do conhecimento dos gálatas (Gal.6.11). Mas, o texto representa uma hipótese impossível para aquele tempo, o que deve ser entendido como uma metáfora. Portanto, como se diz em Direito: “Se não há lei, não há crime”.

3. A Moral Cristã. Isto quer dizer: aquele conjunto de regras válidas para a conduta de um cristão, levando-se em conta a natureza da fé e os alvos mais elevados da vida espiritual.

Ora, aqui, o espírito altruísta do cristianismo, a começar com o Senhor Jesus Cristo, que deu Sua própria vida por nós, é aceitável a atitude de alguém doar do que tem e que não lhe servirá mais, para favorecer a outrem que ainda precisa daquele bem para prosseguir, um pouco mais, na jornada da sua existência. Portanto, a moral cristã, salvo melhor juízo, favorece a doação de órgãos do corpo humano para transplante.

4. A Resposta de Deus à consciência do cristão. Isto quer dizer que o cristão, sobre assuntos de maior indagação, ora a Deus, depois de analisar todos os itens acima, e procura auscultar o que Deus o faz entender e sentir. Sentindo-se bem e confortável interiormente, o cristão decide que é isso que Deus quer para ele.

E então, não tendo nada na palavra de Deus que o proíba, um cristão, diante de uma consciência tranqüila, poderá decidir sobre doar ou não doar órgãos do seu corpo para transplante.

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