GALARDÃO

galardaoGALARDÃO 

INTRODUÇÃO

O título “Graça e Galardão” soa um tanto estranho aos nossos ouvidos, pois parece um contra-senso que ambos apareçam juntos, uma vez que a graça é um favor imerecido concedido gratuitamente, enquanto que o galardão é uma recompensa resultante das obras realizadas.

Graça se origina no amor de Deus, de sua generosidade, e tem como base a justiça de Cristo. O galardão tem origem na justiça do cristão, tendo como base a justiça retributiva de Deus.

Entretanto nos propomos a demonstrar que essas diferenças, existente na lógica teológica, se extinguem na prática, porque ambos, a graça e o galardão, têm como causa primeva a própria graça de Deus e Sua Pessoa.

Tanto a graça da salvação quanto os galardões são decorrentes do atributo de justiça de Deus, pois lhe é próprio e inerente à sua natureza recompensar a humanidade cada um de conformidade com suas obras.

A justiça de Deus é retributiva e remunerativa. A justiça retributiva por sua vez pode ser punitiva ou corretiva. Já a segunda, a justiça remunerativa, tem a ver com as recompensas que Deus dá aos homens pela obediência a Sua palavra. Mas até a obediência a palavra de Deus depende de sua graça.

Neste sentido pretendemos demonstrar que os galardões, muito embora sejam eles recompensas das obras, são também frutos da graça de Deus, assim como o é a salvação. Por esta razão dividimos este trabalho em duas partes. O primeiro capítulo trata da graça de Deus e suas características. O segundo capítulo trata dos galardões. Esta ordem não é ocasional, pois cremos que só podemos aceitar, sem preconceitos teológicos, a afirmativa de que os galardões são frutos da graça de Deus, se realmente compreendermos o verdadeiro sentido da graça.

A graça de Deus tem se manifestado abundantemente (At.4:33; IICo.9:8; Tt.2:11), mas não somente no tempo do Novo Testamento, e sim desde o começo do mundo. Já no livro de Gênesis podemos encontrar a atuação da graça de Deus. Em Gênesis 2:17 ela se manifesta no fato de Deus ter adiado a condenação de Adão. Em Gênesis 3:15 Deus, por misericórdia, promete a vinda de alguém que esmagaria a cabeça da serpente. Em Gênesis 3:16, Deus confirma a posição de Adão como pai da humanidade e cabeça da família, apesar de este haver pecado. Este foi um ato da graça divina. Em Gênesis 3:19, Deus providenciou trabalho para Adão, e isto também se constitui em um ato da graça divina. Deus manteve a terra aproveitável e útil, apesar de ter sido amaldiçoada pelo pecado de Adão, e esta é, também, outra manifestação da Sua graça. Em Gênesis 3:21, Deus providenciou uma cobertura para o pecado de Adão: um ato da graça de Deus. Podemos também notar que Abel recebeu a graça de Deus, pois Deus teve consideração por ele e se agradou da sua oferta, como registrado em Gênesis 4:4. Deus não tinha obrigação alguma de receber o sacrifício de Abel, mas graciosamente o fez. Novamente, em Gênesis 5:24, vemos a graça de Deus para com Enoque, pois Ele andava com Enoque e Enoque com ele, e não mais foi achado, pois Deus o tomou. Este foi um ato da graça. Indo a Gênesis 6:8, lemos que Noé achou graça aos olhos do Senhor. Esta é a primeira menção específica da graça de Deus derramada sobre o homem, embora ela tenha se manifestado antes dos dias de Noé.

Poderíamos continuar por toda a bíblia, partindo do livro da Lei, passando pelos livros históricos, pelos Profetas, pelos livros poéticos, evangelhos, epístolas, até o Apocalipse, e encontraríamos abundamentemente a manifestação da graça de Deus. Se fizéssemos um estudo deste tipo talvez entenderíamos, de fato, o que é a graça de Deus.

CAPÍTULO I – Graça 

I) Significado Etmológico da Palavra Graça:

A palavra grega para graça é Vcháris). Este termo grego é encontrado cerca de 190 vezes no Antigo Testamento (na LXX) e 155 vezes no Novo Testamento. Os equivalente hebraicos para cháris são (1) chen, (2) rason, (3) chesed, (4) raham, (5) tôb, (6) gedûlâh, (7) biglal e (8) halaq, cada qual com seu significado próprio conforme o contexto.

Segue abaixo uma tabela de alguns dos equivalente hebraicos, usados no Antigo Testamento, mais próximos do significado teológico de cháris utilizado por Paulo no Novo Testamento.

EQUIVALENTES GREGO E HEBRAICO

REFERÊNCIAS

GREGO

HEBRAICO

TRADUÇÃO (VERSÃO)

BÍBLICAS

TRANSLITERADO

TRANSLITERADO

ARC

ARA

Pv.1:9

cháris

chen

graça

graça

Pv.4:9

cháris

chen

graça

graça

Pv.5:19

cháris

chen

graciosa

graciosa

Pv.10:32

cháris

rason

agrada

agrada

Pv.11:27

cháris

rason

favor

favor

Pv.12:2

cháris

rason

favor

favor

Et.2:9,17

cháris

chesed

graça

favor

 

O termo hebraico mais importante é chen, pois ele tem dois significados básicos relacionados à graça de Deus:

1) Graça: Favor dos Homens: Chen “denota o mais forte que vem em socorro do mais fraco que precisa de socorro por causa das suas circunstâncias ou da sua fraqueza natural.” (Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. II, p. 317).  Como exemplo citamos: (a) Jacó diante de Esaú (Gn.32:5); (b) José diante de Potifar (Gn.3:4; 50:4); (c) Os egípcios diante de José (Gn.47:25); (d) Rute diante de Boaz (Rt.2:2,10,13); (e) Ana diante de Eli (ISm.1:18); (f) Davi diante de Saul (ISm.16:22; 20:3); (g) Ester diante do Rei (Et.8:5) e (h) Os homens diante de Deus (Gn.6:8; 39:21; Ex.3:21; 11:3; 12:36; 33:12,13,17; IISm.15:25).

2) Graça: Favor de Deus: Chendenota a dádiva não merecida da eleição. (Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. II, p. 318). (Gn.6:8; cp. Rm.11:5). Charles Ryrie comentando sobre a palavra graça esclarece: “graça,  no hebraico chen, substantivo derivado de uma raiz que significa ‘curvar-se, abaixar-se’; indica favor imerecido ou condescendência de um superior por alguém inferior em posição ou valor. Às vezes é usado redentivamente (Jr.31:2; Zc.12:10).” (Charles Caldwell Ryrie. A Bíblia Anotada, p. 15 (Nota de rodapé sobre Gn.6:8) O Dr. Packer também esclarece esse termo: “…chen ( também traduzido por ‘graça’ na Versão Revista e Corrigida) que significa o ‘favor’ que um suplicante ‘acha’ aos olhos de um superior, de quem não pode reivindicar tratamento favorável, como se lhe fosse um direito. (Como exemplo disso, a nivel humano, ver Gn. 33:8,15; 34:11; 47:25; Rt.2:2,10,13). Escreveu o Dr. Norman Snaith: ‘Chen significa bondade e graciosidade em geral – ou seja, não há qualquer relação ou ligação particular entre as partes envolvidas’ …também ‘não há o mais leve sussurro de censura possível se esse favor não for concedido’. Portanto, a graça – chen – é gratuita, no sentido que a pessoa que a demonstra não está, de modo algum, obrigada a demonstrá-la.” (J. I. Packer. Vocábulos de Deus, p. 87).

II) Significado Teológico da Palavra Graça:

1) Poder de Deus: Em termos simples podemos definir graça como “favor imerecido”. Contudo, teologicamente, graça é muito mais do que favor imerecido. De acordo com a teologia de Paulo, podemos definir graça como sendo “o poder dinâmico de Deus que nos leva a desejar e a fazer a sua vontade”. Tomemos como exemplo a graça da salvação. É fato indiscutível, e nisto todos os teólogos de bom senso concordam, que a salvação é outorgada ao pecador, não com base em suas obras de justiça, mas como um presente ou favor imerecido de Deus, com base na justiça de Cristo (Rm.4:2-6; 11:6; Ef.2:8,9). Se graça fosse tão somente favor imerecido, tal favor poderia ser recusado, mas sendo o poder dinâmico de Deus, ela nos leva a desejar a salvação tanto quanto buscá-la (Ez. 36:25-27; Lc.14:23; Fp.2:13; Hb.13:20,21). A graça de Deus pode e é recusada muitas vezes pelos homens (At.7:51; IICo.6:1; Gl.2:21) mas isso não ocorre sempre. Ocorreria se ela fosse apenas um favor imerecido, porque a inclinação natural do ser humano é o de rejeitar a graça de Deus  (Ec.8:11; Rm.3:10-18; 8:7). Não somos cooperadores  de Deus na obra da salvação, mas sim na obra da reconciliação, na qualidade de embaixadores em nome de Cristo (IICo.5:18-6:3). Não somos cooperadores de Deus na nossa própria salvação, mas sim cooperadores na salvação de outras almas na medida em que nos dispomos para ser usados por Deus na proclamação do evangelho (ICo.3:5-9). Repudiamos a idéia da cooperação humana no processo da salvação, mas não negamos a responsabilidade humana quando esta é rejeitada.

2) Amor de Deus: Mas graça não é apenas o poder de Deus, pois então seria apenas uma força impessoal, uma energia divina. Conforme esclarece o Dr. J. I. Packer a graça de Deus “…inclui o significado de duas outras palavras-chaves do Antigo Testamento. A primeira delas é a ’ahabah de Deus, que vem do verbo  ’aheb, cujo significado é amor, amor eletivo, conforme o Dr. Snaith o chama. Esse é o amor mediante o qual o Senhor escolheu Israel para ser o seu povo, um amor espontâneo, seletivo, incondicional, não-solicitado e imerecido (Cf.Dt.7:7,8; 9:4,5; Os.11;1-11). (J. I. Packer. Vocábulos de Deus, p.87).  Packer continua a demonstrar o real sentido desta palavra – graça – em relação ao texto hebraico: “Outro termo hebraico envolvido é chesed de Deus. Esse termo é usualmente traduzido por ‘misericórdia’ e “compaixão’ Na Septuaginta (eleos e eleêmosunê), e como ‘bondade amável’, em algumas versões. Porém, melhor ainda é a tradução ‘amor constante’, porque a idéia básica por trás dessa palavra é a resoluta lealdade de Deus ao povo com quem Ele se comprometeu. Snaith intitulou-o de ‘amor pactuante’ de Deus, por tratar-se, essencialmente, de uma questão de fidelidade à promessa do pacto pelo qual Deus comprometeu-se a ser o Deus de Israel e a usar todos os recursos da deidade a fim de abençoá-los.” Portanto a idéia é sempre a da graça como um dom pessoal de Deus. “No Novo Testamento, pois ‘graça,  não é uma energia impessoal ligada automaticamente pela oração e pelas ordenanças. Antes, é o coração e a mão do Deus Vivo e Todo-Poderoso… as orações dos crentes a invocam; mas só Deus pode usar da graça e levar os homens a se beneficiarem dela.” (J. I. Packer. Vocábulos de Deus, p.89).

III) TERMOS TEOLÓGICOS PARA GRAÇA:

Os teólogos cunharam alguns termos teológicos para definir a graça de Deus em seus mais diversos aspectos. Algumas pessoas rejeitam esses termos somente porque eles não aparecem na Bíblia. Esta reação de algumas pessoas é bastante negativa e precipitada, pois há muitos termos que usamos frequentemente para descrever uma doutrina ou uma faceta dela, muito embora tais termos não se encontrem nas Sagradas Escrituras. É o caso, por exemplo, da palavra trindade ou triunidade. Esta palavra não se encontra nem mesmo nas línguas originais, mas expressa com muita propriedade os ensinos escriturísticos do Deus Triuno. Este argumento é apresentado pelos russelitas (testemunhas de Jeová) para rejeitarem a doutrina da triunidade. A Teologia é uma ciência, e como tal possui seus próprios termos e palavras, dentro de seu próprio universo. Vamos examinar a seguir alguns desses termos usados ao longo da história da Igreja e da construção da teologia sistemática.

1) Graça Comum: É a graça geral ou universal a qual é concedida a todos os homens. (O termo graça geral é usado na Teologia Holandesa). Ela é comum a toda a humanidade e por esta razão recebe este nome. Toda a raça humana usufrui de seus benefícios, independentemente de suas condições morais, pois a graça comum não discrimina entre uma pessoa e outra. Por meio da graça comum Deus “…faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos.” (Mt.5:45). Louis Berkhof define a graça comum como sendo “(a) as operações gerais do Espírito Santo pelas quais Ele, sem renovar o coração, exerce tal influência sobre o homem por meio da sua revelação geral ou especial, que o pecado sofre restrição, a ordem é mantida na vida social, e a justiça civil é promovida; ou (b) as bençãos gerais, como a chuva e o sol, água e alimento, roupa e abrigo, que Deus dá a todos os homens indiscriminadamente, onde e quanto lhe parece bom fazê-lo.” (Louis Berkhof. Teologia Sistemática, p.437). Concordamos com Berkhof, pois encontramos apoio escriturístico para sua definição de graça comum. Vemos o pecado sendo restringido por Deus, através de sua graça, em muitas passagens das Escrituras (Gn. 20:6; 31:7; Jó 1:12; Ec.3:11). Igualmente a justiça é mantida pela graça de Deus (Lc.6:33; 11:13; Rm.2:14,15). P. E. Hughes diz que “é devido a graça comum que o homem retém dentro de si uma consciência da diferença entre o certo e o errado, entre a verdade e a falsidade, entre a justiça e a injustiça, e a consciência de que ele é responsável e passível de prestar contas não meramente ao seu próximo, como também, em última análise, a Deus, seu Criador.” (P. E. HUGHES in Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã, v. II, p.217). E as bençãos gerais do Espírito Santo também são encontradas em grande variedade (Sl.145:15,16; Jó 1:9; 12:17,18; Rm.5:18; Tt.2:11; Mt.5:45; Lc.6;35; At.14:17; Rm.13:1-4).

2) Graça Especial: É a graça pela qual Deus redime, santifica e glorifica seu povo. Ela é concedida somente àqueles que Deus elegeu para a salvação, mediante a fé em Jesus Cristo. Por isso ela é chamada, às vezes, de graça salvadora ou graça regeneradora, porque leva à cabo o propósito para o qual foi concedida, ou seja a salvação do pecador. A graça especial é limitada não em sua suficiência ou extensão, mas somente no que se refere à sua aplicação. Por isso mesmo ela é limitada aos eleitos de Deus, ao contrário da graça comum que é outorgada indiscriminadamente a todos os homens. Portanto não é apropriado falar na graça especial em termos de quantidade, como se fosse suficiente somente para os eleitos, ou como se, no caso da sua suficiência ultrapassar estes limites, isto importasse num desperdício da graça, e, neste aspecto, numa invalidação da oferta de Cristo, pois a graça de Deus é ilimitada. A distinção mais bíblica é a que sugere ser a graça de Deus suficiente para todos, mas eficiente somente para os eleitos. (Eficiente não deve ser entendido em termos de intensidade, isto é, que haja mais graça para os eleitos do que para os não eleitos; ou em termos de quantidade, no sentido de que ela seja limitada ou pequena demais para suprir somente os eleitos. Deve ser entendida em termos de eficácia ou aplicação, o que significa que a graça será sempre eficiente para os eleitos, sobre os quais ela é aplicada, pois terá sempre o propósito salvífico. IPedro1:2 usa o termo aspergido ou derramado, referindo-se ao sangue de Cristo.  Já a palavra suficiente deve ser entendida em termos de extensão ou de possibilidades para a salvação, e nunca no sentido de realidade absoluta).

Deste conceito surgiu o termo graça suficiente.

De tanta discussão sobre a graça de Deus, e na tentativa de melhor defini-la, os teólogos cunharam alguns termos procurando enfatizar outras facetas da graça de Deus. Porém há um vínculo muito estreito e de dependência entre as diversas facetas da graça, o que torna estes termos quase sinônimos. O termo graça eficaz, por exemplo, é sinônimo de graça especial, porque, tal como aquela, ela não pode falhar nem dar em nada, mas é dada para cumprir o seu propósito (Is.55:11). Na graça eficaz está implícita também a totalidade da redenção (justificação, santificação e glorificação), pois não há poder no universo que possa desfazer ou frustrar a obra da graça eficaz de Deus (Jo.6:37,39; 10:27-28; Rm.8:29-30,38,39). Outro termo, a graça irresistível, sempre causa o efeito desejado e não é possível que seja resistida por quem quer que seja, mesmo pelo livre-arbítrio do homem, se é que ele existe de fato. Diz a Bíblia que o homem é escravo do pecado (Jo.8:34); se o homem é escravo, como poderá ser livre a não ser pela atuação da graça de Cristo? (Jo.8:36; Lc.4;18; Rm.8:21; IICo.3:17; Gl.2:4; 5:1; Cl.1:13; Ap.1:5; Jó 23:13; 42:1,2; Is.46:10; 14:24; Pv.21:1; Sl.86:11; 110:3).

3) Graça Preveniente: É a graça que vem em primeiro lugar e antecede toda a decisão humana. é Deus quem toma a iniciativa em favor dos pecadores. ela não começa conosco, começa com Deus e por isso mesmo é totalmente livre (IJo.4:10,19).

4) Graça Barata: Este termo é aplicado para se referir a uma “salvação” desvinculada de um compromisso com a obra de Cristo, descartando toda e qualquer vida piedosa que o evangelho requer. É a graça que premia sem exigir. Tudo pode ser feito, porque não se está debaixo da lei mas da graça; portanto não há nenhuma condenação para aqueles que recebem a graça de Deus, e por isso mesmo tudo lhes é permitido fazer. A graça barata oferece salvação sem exigir santificação. É a salvação sem o senhorio de Cristo. Aceita-se o Cristo como Salvador, mas não o reconhece como Senhor. A graça barata despreza tudo que há na lei e defende com rigor a antinomia. Antinomia é a doutrina baseada na suposição de que Paulo, por enfatizar demais a graça de Deus, era contra a sua lei. A antinomia é o oposto do legalismo defendido pelos judaizantes, que enfatizavam a lei, desprezando a graça de Deus. A antinomia tão combatida por Paulo e por outros apóstolos, teve seus pressupostos no gnosticismo judaico-helenístico difundido pelos falsos mestres no seio da Igreja Primitiva (IPe.5:12; Jd.4).

CAPÍTULO II – GALARDÃO 

I) Definição Etmológica de Galardão:

 

A palavra grega para galardão é Vmisthós), que significa salário (Rm.4:4) ou recompensa (Mt.5:46). Galardão, portanto, são as recompensas que os salvos receberão na glória porvirde acordo com suas obras (IICo.5:10). A doutrina do galardão não é nenhum absurdo; ela encontra apoio escriturístico suficiente, tanto no Antigo Testamento (IICr.15:7; Is.40;10; 62:11) quanto no Novo Testamento (Mt.16:27; ICo.3:8,14; Ef.6:8; Ap.2:23; Ap.11:18; Ap.22:12). É bom lembrar que alguns recebem sua recompensa aqui mesmo nesta terra (Lc.18:29,30; IICo.9:6; Gl.6:7,9).

Há ainda uma outra palavra grega usada no Novo Testamento para apoiar este ensinamento. É Vantapódosis). Ela tem o sentido de retribuição e pode ser usada tanto no sentido positivo de recompensa (Cl.3:24; Lc.14:12), como no sentido negativo de punição (Rm.11:9).

Veja no quadro abaixo as palavras gregas e hebraicas conforme usadas na Sagradas Escrituras, nas versões de Almeida Revista e Corrigida (ARC) e Almeida Revista e Atualizada (ARA).

 

EQUIVALENTES GREGO E HEBRAICO

REFERÊNCIAS

GREGO

HEBRAICO

TRADUÇÃO

BÍBLICAS

TRANSLITERADO

TRANSLITERADO

ARC

ARA

Mt.5:12; 10:41,42

Mc.9:41; Lc.6:23

ICo.3:8,14

Ap.11:18; 22:12

misthós

galardão

galardão

Rm.4:4

misthós

galardão

salário

Cl.3:24

antapódosis

galardão

recompensa

Lc.14:12

antapódosis

recompensa

recompensa

Rm.11:9

antapódosis

retribuição

punição

IICr.15:7

misthós

recompensa

recompensa

Is.40:10

misthós

Is.62:11

misthós

 

 

II) A Base dos Galardões:

 

Assim como a salvação é concedida pela graça de Deus, os galardões, de um certo modo, também o são. Disto não podemos duvidar. A base ou causa dos galardões é a graça de Deus; o meio são as obras. Como pode ser isso se a Bíblia afirma que os galardões serão retribuidos de acordo com as obras de cada um? Ora, é preciso entender o que a Bíblia quer dizer. Não diz a Bíblia, em João 5:29, que aqueles que tiverem feito o bem ressuscitarão para a vida, enquanto que aqueles que tiverem praticado o mal ressuscitarão para o juízo? Não diz também em Tiago 2:21 que Abraão foi justificado pelas obras?  Não diz em Romanos 2:6-10 que Deus retribuirá com angústia e tribulação aos maus, e com vida eterna, honra e paz aos que fizerem o bem? Não disse Jesus em Mateus 25:34-36 que só entrarão no reino de Deus aqueles que praticarem obras de caridade para com o próximo? Não está escrito, nos Salmos 24:4, que somente o limpo de mãos e puro de coração permanecerá na presença do Senhor? Não diz o Salmo 15:2 que somente aquele que praticar a justiça habitará nos céus? Será que esses versículos dão margem a doutrina romanista da justificação pelas obras? Certamente que não! São versículos como estes que os indoutos torcem para formular uma teologia antibíblica, dando apoio ao surgimento de seitas heréticas que pregam a salvação pelas obras. E como estes há muitos outros semelhantes, e é claro que nenhum deles ensinam a justificação pelas obras, mas apontam, todos sem excessão, para o resultado da salvação, pois “somos salvos pela graça… para as boas obras.” (Ef.2:8 e 10). Não se diz que somos salvos pela graça e pelas obras, mas pela graça e para as obras. E como é que se pratica a justiça? A Bíblia esclarece: “…os quais por meio da fé… praticaram a justiça…”(Hb.11:33). Se a fé sem obras é uma fé    morta (Tg.2:17), igualmente obras sem fé é obra morta (Hb.9:14). Vemos, pois, que a graça de Deus permeia todo o processo da salvação, do início ao fim (Fp.1:6), e funde seus dois elementos em um só: a fé e as obras, depois da fé. Nesse sentido as obras as quais a Bíblia se refere, necessárias para demonstrar a salvação, é a “obra de fé”(ITs.1:3) ou  “obediência de fé”(Rm.1:5; 16:26), “obras de Deus”(Jo.6:28,29), “feitas em Deus”(Jo.3:21).

A Bíblia não deixa margem para dúvidas. Ela é clara e categórica quando afirma, inúmeras vezes, que nossas melhores obras são o resultado da ação graciosa do Espírito Santo de Deus em nossas vidas: “Seja sobre nós a graça do Senhor nosso Deus; confirma sobre nós as obras de nossas mãos…”(Sl.90:17). Até mesmo no Antigo Testamento encontramos apoio para esta verdade bíblica: “…todas as nossas obras tu as fazes por nós.”(Is.26:12). É claro que não poderíamos praticar obras de justiça se Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo não atuasse em nós (Jo.15:5). Se assim não fosse, nossas melhores obras de justiça seriam como o trapo da imundície (Is.64:6). Paulo diz que trabalhou muito mais do que todos os apóstolos, mas enfatiza com clareza: “…todavia não eu, mas a graça de Deus comigo.” (ICo.15:10). É certo que no porvir receberemos vestes resplandecentes conforme nossos atos de justiça (Ap.19:8), mas não devemos nos esquecer jamais, que Cristo é a nossa justiça (ICo.1:30; Jr.23:6).

Se as obras de justiça são resultantes da graça de Deus, segue-se que os galardões também o serão. “A graça é necessária para toda ação. a graça inicia e completa até as ações dos eleitos. O galardão divino é um galardão da graça.” (Colin BROWN. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v.II, p.319). Deus não é obrigado a nos recompensar pelas nossas obras: “Porventura terá de agradecer (agraciar, galardoar) ao servo por ter este feito o que lhe havia ordenado?”(Lc.17:9). No entanto Ele o faz por sua livre graça. A salvação é uma graça e o galardão também porque “…Deus é galardoador daqueles que o buscam (Hb.6:11).

A graça de Deus é a causa eficiente da salvação tanto quanto dos galardões. A é o meio da salvação como a obra é o meio para se obter os galardões. A salvação é a recompensa da fé; o galardão é a recompensa das obras; e ambos provém da graça.

Às vezes a Bíblia não faz diferença entre salvação e galardão. Como exemplo podemos ler no livro de Hebreus os cristãos judeus sendo advertidos a perseverarem na fé a fim de receberem a recompensa: “Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão.”(Hb.10;35).

 

III) Quando serão concedidos os galardões?

 

Esta é uma questão bastante importante, pois muitos há que confundem o tempo do recebimento dos galardões com o mesmo período do juízo final. A Bíblia é clara quando afirma que o crente não entrará em juízo (Jo.5:24), donde se conclui que o julgamento do crente há de acontecer em período distinto do julgamento dos incrédulos. Este ponto é muito mais claro ainda quando lemos os capítulos finais de Apocalipse (Ap.20:4-7,11-15). Parece evidente que haverá duas ressurreições. Na primeira ressuscitarão os salvos, os quais serão julgados, não para serem condenados, mas sim para receberem os seus galardões (Ap.20:4). Na segunda ressurreição serão julgados os perdidos, os quais receberão a justa punição, conforme suas obras (Ap.20:12). A Igreja de Cristo será julgada primeiro (IPe.4:17), separada dos gentios, cujo julgamento, será no dia do juízo. É interessante notar que a Bíblia fala de dois livros (Ap.20:12), o livro da vida e o livro das obras. Na primeira ressurreição não é mencionado a abertura de nenhum livro, nem mesmo o livro da vida. Já na segunda ressurreição se diz que abriram-se os dois livros. O livro das obras para julgar conforme o que se achava escrito (Ap.20:12), e o livro da vida para confirmar que os nomes dos condenados não se encontrava nele escrito (Ap.20:15). Não podemos afirmar que o livro da vida não será aberto no momento do julgamento dos crentes, mas com certeza o livro das obras não será, pois as obras dos salvos não serão objeto de julgamento, uma vez que todos os pecados do crente já foram julgados e pregados na cruz (Cl.2:14). Os crentes da Igreja serão julgados perante o tribunal de Cristo (IICo.5:10), onde receberão suas recompensas, e não diante do trono branco (Ap.20:11). A palavra tribunal, no grego bema (Bema), mencionada em II Coríntios 5:10, era usada para se referir à tribuna de honra onde se postavam as autoridades para assistirem os jogos olímpicos. Os vencedores aproximavam-se desta tribuna para receberem os louros da vitória. Portanto os pecados dos crentes não serão lembrados diante de Deus (Hb.10:17), nem tampouco serão mencionadas as obras de “madeira, feno, palha” (ICo.3:12); estas serão queimadas (IICo.3:15) e somente as boas obras, isto é “ouro, prata, pedras preciosas” (ICo.3:12) que estão fundamentadas em Jesus Cristo (ICo.15:11) hão de permanecer, e são elas que serão julgadas para o recebimento de galardões.

Devemos entender que o julgamento do cristão ocorre em três fases:  (1) Na primeira fase Deus se apresenta como Juiz para julgar o crente na qualidade de pecador. Seus pecados, isto é, as más obras, é que são julgadas. Esta fase ocorre no passado, no momento em que o pecador aceita a Cristo como seu Salvador (Rm.8:1; Jo.5:24). (2) Na segunda fase Deus se apresenta como Pai para julgar o crente na qualidade filho. Suas más obras, resquício do velho homem, são julgadas durante sua vida presente nesta terra (Hb.12:10; ICo.11:32). (3) Na terceira fase Deus se apresenta como Senhor para julgar as boas obras do crente, e este na qualidade de servo. Esta fase é futura e se dará no tribunal de Cristo, para que os servos do Senhor recebam suas recompensas conforme a fidelidade da cada um (IICo.5:10).

 

 

Veja na tabela a seguir as três fases do julgamento do crente.

 

O JULGAMENTO DO CRENTE

DEUS JULGA NA QUALIDADE DE

JUIZ

PAI

SENHOR

O CRENTE

É JULGADO

PECADOR

FILHO

SERVO

COMO

LOCAL DA AÇÃO

NA CRUZ

Rm.8:1

Jo.5:24

Nesta Vida

Hb.12:10

ICo.11:32

TRIBUNAL

IICo.5:10

(BEMA)

TEMPO DA AÇÃO

PASSADO

PRESENTE

FUTURO

 

IV) Tipos de Galardões:

 

Embora haja vários tipos de galardões, tais como galardão de profeta e galardão de justo (Mt.10:41), a Bíblia só especifica os nomes da coroas. Ela não explica o que vem a ser esses galardões de profeta e de justo. As coroas são as seguintes:

 

1) Coroa da Alegria (ITs.2:19; Fp.4:1): Esta coroa será concedida aos ganhadores de almas. Às vezes a coroa é símbolo de alegria (Is.28:1; Ct.3:11; Ez.23:42), e a Bíblia declara que há alegria no céu quando uma alma é ganha para Cristo (Lc.15:7).

 

2) Coroa da Vida (Tg.1:12; Ap.2:10): Não é a vida eterna como pensam muitos cristãos, pois o galardão é dado com base nas obras enquanto que a salvação é dada com base na graça de Deus. De maneira nenhuma a vida eterna poderia ser obtida pela fidelidade e aprovação dos crentes nos momentos de tribulação. Muitos são reprovados pelo Senhor (Hb.12:5), e no entanto continuam sendo salvos pela graça de Deus. Esta coroa, portanto, será concedida àqueles que, ao suportarem provações e sofrimentos nesta vida, permanecem fiéis no seu amor a Deus.

 

3) Coroa da Incorruptibilidade (IICo.9:25,27): Esta coroa é ganha pela domínio de si mesmo, de suas paixões e desejos; é a auto negação (Lc.9:23), que só pode ser conseguida pelo auxílio do Espírito Santo, pois se trata do domínio próprio que é um fruto do Espírito (Gl.5:22,23).

 

4) Coroa da Glória (IPe.5:2-4): Esta coroa será dada àqueles que nutrem o rebanho de Deus, não apenas aos pastores, mas a todos aqueles que cuidarem dos filhos de Deus ajudando-os a crescerem.

 

5) Coroa da Justiça (IITm.4:8): Será ganha por aqueles cujas vidas são vividas inteiramente em pról do reino de Deus (Mt.6:33), aguardando com muita intensidade a segunda vinda de Jesus (Ap.22:17,20).

 

GRÁFICO DAS COROAS

COROAS

COMO SÃO GANHAS

REFERÊNCIAS BÍBLICAS

Coroa da Alegria

Ganhando Almas

ITs.2;19; Fp.4:1

Coroa da Vida

Suportando Provações

Tg.1:12; Ap.2;10

Coroa da

Incorruptibilidade

Tendo Domínio Próprio

e Auto-Negação

ICo.9:25

Lc.9:23

Coroa da Glória

Cuidando do Rebanho

IPe.5:4

Coroa da Justiça

Ansiando a Volta de Cristo

IITm.4:8

 

V) Para que servirão os galardões?

 

Muitos crentes se satisfazem apenas com o dom da salvação. eles desprezam as recompensas alegando que trabalham na obra de Deus apenas movidos pelo amor, e não visam prêmios nem interesse pessoal. Mas este raciocínio não é correto, pois nenhum cristão deve imaginar que a vida cristã é uma competição para que os melhores ostentem lá no céu os seus galardões. Os galardões serão dados aos crentes para que estes sejam consagrados ao Senhor (Ap.4:10,11; Rm.11:35,36), porque as boas obras através das quais os crentes receberão galardões são também realizadas pela graça de Deus (Is.26:12; Fp.2:13; Hb.13:20,21) e, portanto, Deus é merecedor de toda honra e glória. No entanto as boas obras foram de antemão preparadas por Deus para que andássemos nelas (Ef.2:10). Andemos, pois nas boas obras para que não percamos a nossa coroa (IIJo.8; Ap.3:11) e não aconteça de aparecermos diante do Senhor de mãos vazias (Dt.16:16). Alguns reis perderam suas coroas (Ez.21:25,26); o povo de Israel também (Lm.5:16; Sl.89:39). Devemos cuidar para não incorrer no mesmo exemplo deles!

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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