UMA VISÃO GERAL DO PROFETISMO

profetismoUMA VISÃO GERAL DO PROFETISMO

Primeira conferência teológica preparada pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a PIB de Nova Odessa, SP, 5/7/2001.

INTRODUÇÃO – O profetismo não se originou em Israel. Não foi algo inédito porque era encontrado no paganismo. Neste caso, o profeta tinha a função de orientar o rei quanto às batalhas a travar e as decisões políticas e pessoais que deveria tomar.

O rei era o representante da divindade nacional e o profeta era a voz desta divindade. Tais profetas eram ligados ao poder constituído. Para executar seu ofício valiam-se de leitura de fígados de animais sacrificados aos ídolos (hepatoscopia), da leitura das figuras formadas pelo derramamento do azeite numa taça de ouro do profeta (lecanomancia) e da oniromancia, a interpretação de sonhos.

Neste caso, geralmente o profeta ingeria alucinógenos e se deitava diante da imagem do seu deus para receber os sonhos. Também interpretavam os sonhos reais. O sonho de Nabucodonosor e a interpretação der Daniel são resquícios disso.

Havia também a interpretação do ruído feito do vento nas folhas das árvores, principalmente os carvalhos, tidos como sagrados, por sua larga copa, que o tornava distinto no deserto, e por sua longevidade.

Quando Abraão saiu de Ur e chegou até Siquém, parou junto ao carvalho de Moré (Gn 12.6). Moré significa mestre. Com toda probabilidade, ele chegou a uma comunidade de profetas cananeus que ouviam o barulho das copas dos carvalhos e tentavam ouvir divindades lhes falando.

Em Israel, o primeiro homem a receber este título foi exatamente Abraão, em Gênesis 20.7. O termo empregado neste texto, é nâbhi, a palavra hebraica mais comum traduzida por “profeta” em português. Depois, o termo foi estendido a Arão (Êx 7.1) e a Moisés (Dt 34.10). Moisés ficou sendo conhecido como o maior profeta de todos os tempos em Israel (Dt 34.10) e Samuel, pode-se dizer, como o segundo maior (Jr 15.1). Moisés foi uma espécie de protótipo dos profetas, prenunciando o último grande profeta, o Messias, que viria para falar palavras poderosas que Deus autenticaria com obras poderosas (Dt 18.15-22; At 3.22).

No Novo Testamento, no sermão do monte, Jesus deixa bem claro que ele é o novo Moisés, nas muitas vezes em diz “ouvistes que foi dito”…, eu, porém, vos digo”. Ele opôs, conscientemente, seu ensino ao de Moisés. Guardemos isto desde já: Jesus é a personificação maior de todos os profetas, o que não exclui sua divindade. Com isto queremos dizer que é nele que a revelação se completa e que é por ele que Deus deu sua última palavra ao mundo.

1. O QUE ERA UM PROFETA – Pensamos em profeta como adivinhador de eventos. É uma generalização imprecisa da palavra. O profeta era um proclamador da Palavra de Deus ao povo. Eventualmente, na proclamação, havia a predição. É preciso diferenciar bem isto. Profecia e predição não são sinônimos. Abraão, o primeiro profeta, nada vaticinou. Moisés, o profeta padrão, proclamou a Palavra de Deus ao povo, com eventuais descortínios do futuro. Mesmo assim, quando falava do futuro, era em termos do que aconteceria ao povo, conforme seu posicionamento diante de Iahweh.

Veremos melhor o que era um profeta analisando os termos hebraicos. A palavra “profeta” aparece aproximadamente 660 vezes na Bíblia. Destas, 440 vezes no Antigo Testamento e 220 vezes no Novo Testamento. No Novo, a função básica do profeta (em grego, profhthV = profeta; profhteuw = profetizar) era de falar aos homens para “edificação, exortação e consolação” (1Co 14.3;29-32; Ef 4.11-13). Mas vamos nos deter no Antigo Testamento. Três termos hebraicos diferentes são traduzidas em português pela palavra “profeta”, embora algumas outras palavras hebraicas se referiam ao trabalho do profeta. Fiquemos com estas três.

1) Nâbhi. Tem o sentido de “declarar, anunciar, falar por, representar”. Com esta definição, o profeta era um “porta-voz especial de Deus”, agindo como um embaixador, anunciando a vontade de Deus para o seu povo, especialmente em época de crise. Ele pregava a justiça, principalmente nos momentos de decadência moral e espiritual. Agia como um arauto divino ou um procurador dos negócios de Iahweh na terra. Nâbhi é o termo mais comum e o mais solene. Tornou-se, praticamente, o padrão profético. Principalmente por causa do texto de Deuteronômio 18.15.

2) Rõ’eh. Tem o sentido de “vidente, aquele que vê”. Nesta definição, o profeta era alguém que podia penetrar no futuro e revelá-lo (Dt 18.21-22). Esta capacidade servia para corroborar a mensagem do profeta como tendo uma origem divina. Mas isto é mais que adivinhação. Significa que ele tinha uma visão correta da história e via as coisas invisíveis de Deus (2Rs 6.14-17; Hb 11.27).

3) Hôzeh. Tem o mesmo sentido era o mesmo de rõ’eh, “alguém que vê”. Em Miquéias 7.12, Amazias o usa depreciativamente para Amós. Este uso me parece intrigante. Faz-me pensar que Amazias, sendo um falso profeta, não cria em visões de Deus. 1Crônicas 29.29 usa estas três palavras, quando fala de Samuel, o rõ’eh, de Natã o nâbhi, e de Gade, o hôzeh. 1Samuel 9.9 parece indicar que nâbhi e rô’eh significavam algo diferente no passado, mas depois tornaram-se sinônimos. Parece-me que nâbhi passou a ser usado para um grupo de pessoas e rô’eh para um indivíduo. Já o termo hôzeh se relaciona com hazon, traduzido por “visão” (Is 1.1).

4) Alguns outros termos também empregados são: sophi’ym, que significa um atalaia (Jr 6.17; Ez 3.17; 33.2,6,7), shomer, que significa um atalaia, sentinela, guarda (Is 21.11,12; 62.2) e ra’ah, que significa “um pastor” (Jr 23.4; Ez 34.2-10; Zc 11.5,16). Os profetas também foram conhecidos como: “homem de Deus” (referindo-se à intimidade espiritual, 1Sm 9.6), “filho do homem” (identificação com o povo, Ez 2.1,5,6,8; 3.1,3,4 etc.). Eles estudavam, interpretavam e ensinavam a lei de Deus e a comunicavam ao povo. Mas nunca como meros professores, acrescentando informações, e sim advertindo dos perigos da desobediência.

A função sacerdotal se restringia a homens, mas houve profetisas em Israel. Isto deve jogar mais lenha na consagração de mulheres ao ofício pastoral. O pastor é um sacerdote ou um profeta? Não houve sacerdotisas, mas houve profetisas. As profetisas mais conhecidos foram Miriã (Êx 15.20), Débora (Jz 4.4), Hulda (2Rs 22.14; 2Cr 34.22) e Noadias (Ne 6.14). A esposa de Isaías (Is 8.3) foi assim chamada por ser sua esposa. Um termo carinhoso, dado por ele, não pelo povo.

Sobre profetisas, no Novo Testamento, encontramos Ana (Lc 2.36), as quatro filhas do evangelista Filipe (At 21.9), e até uma que se dizia profetisa, mas que Jesus chama de Jezabel (Ap 2.20).

2. OS PROFETAS PRÉ-CLÁSSICOS – Houve muitos profetas, ao longo da história, que ministraram ao povo de Deus, mas suas obras não constam no cânon das Escrituras. São chamados de “pré-clássicos”. Seu ministério aconteceu antes dos profetas tradicionais, clássicos. Alguns apenas profetizavam oralmente, sem registrar suas pregações. Outros escreveram mas suas obras se perderam. O Espírito Santo os usou, mas não preservou seus escritos.
Os nomes de alguns constam no Antigo Testamento: Gade (1Sm 22.5; 2Sm 24.11-19; 1Cr 21.9-19; 29.29; 2Cr 29.25); Natã (2Sm 7.2-17; 12.1-15; 1Rs 1.8-34; 1Cr 29.29; 2Cr 9.29; 29.25); Ido (2Cr 9.29; 12.15; 13.22); Semaías (1Rs 12.22; 2Cr 12.15); Aías (1Rs 11.29; 2Cr 9.29); Azarias (2Cr 15.1); Hanâni (2Cr 16.7-10); Jeú (1Rs 16.1-7; 2Cr 19.2,3; 20.34); Elias (1Rs 17 a 21; 2Rs 1.1-18); Micaías (1Rs 22.8-28); Eliseu (2Rs 1 a 9.1; 13.14-21); Zacarias (2Cr 24.20; Mt 23.35; Lc 11.51); Odede (2Cr 28.9-15).
Outros tiveram os nomes omitidos. São anônimos. Ficaram conhecidos como “profetas de Samuel em Rama” (1Sm 10.5-11; 18.10; 19.19-24); um “homem de Deus” (1Rs 13.1-24); o “velho profeta” (1Rs 13.11-32); os cem profetas escondidos por Obadias (1Rs 18.4); dois profetas desconhecidos (1Rs 20.13,35); os quatrocentos profetas de Acabe (1Rs 22.6-12); os “filhos dos profetas” discípulos de Elias e Eliseu (2Rs 2.3); em Jericó (2Rs 2.5); em Gilgal (2Rs 4.38); em lugar desconhecido (2Rs 6.1); um jovem profeta (2Rs 9.1-10).

3. OS PROFETAS CLÁSSICOS – Os pré-clássicos foram pregadores em momentos de crise, com mensagem restrita à aquela época. Os profetas clássicos são os profetas escritores, que deixaram grandes princípios espirituais para todas as épocas. São dezesseis, autores de dezessete livros proféticos (Jeremias escreveu dois livros). Nossa visão de profeta é condicionada por eles e pelo descortínio de futuro que apresentam, além do chamado “sermão profético”, de Jesus. Assim pensamos no futuro. Mas o verdadeiramente profeta é aquele que traz uma mensagem da parte de Deus que pode se aplicar às pessoas que o ouvem, e, muitas vezes, deixando princípios para as demais gerações posteriores.

4. O CHOQUE ENTRE PROFETA E O SACERDOTE – Quando lemos os livros proféticos, vemos que houve grandes choques entre profetas e sacerdotes. Boa parte se deu porque os sacerdotes institucionalizaram a religião, tornando-a em matéria de rito. Esta deixou de ser vida com Deus e passou a ser algo que obedecia a ritos e que sucedia dentro de um prédio chamado templo. Havia algumas diferenças importantes entre o profeta e o sacerdote, a saber:

1) Chamada – Os profetas eram chamados e designados soberana, individual e diretamente por Deus. Os sacerdotes eram designados por descenderem de Arão (hereditário). Isso ajuda a entender que o profeta tinha uma consciência muito mais aguda de missão. Nascia-se sacerdote, mas não se nascia profeta. Um casal podia produzir um sacerdote, mas só Deus podia afzer um profeta.

2) Função – Os profetas representavam Deus perante o povo. Os sacerdotes representavam o povo perante Deus. Os sacerdotes ofereceram sacrifícios. Alguns dos profetas foram sacrificados, não como holocausto, mas como conseqüência de seu ministério.

3) Área de atuação – Os sacerdotes se restringiram basicamente ao templo. Os profetas ministravam em todo lugar. Não estavam restritos a um prédio. Trabalhavam no campo rural, nas cortes dos reis, etc.. Os sacerdotes eram burocratas do templo. O profeta era um operário na rua

4) Ministério – Os profetas se preocuparam com a justiça social e ética, com a dignidade humana e relacionamentos sociais corretos. Pregavam a necesidade de um coração limpo. Falavam do julgamento divino devido ao pecado e pregavam a necessidade de arrependimento. Sua mensagem ecoava principalmente em épocas de crise, angústia, e decadência moral e espiritual da nação. Os sacerdotes, por sua vez, ministravam constantemente e se preocupavam mais com o sistema religioso. De novo, a diferença entre vida e rito.

5) Ensino – Os profetas eram pregadores de reavivamento, reformando a nação. Os sacerdotes eram mestres habituais, informando e interpretando as leis de Deus à nação. É importante ressaltar que eles não pregaram uma mensagem nova, inédita. Eles pregaram a lei, no seu sentido moral e espiritual, não ritual. A ênfase no ritualismo sacerdotal levou a uma religião seca, de hábitos, e não de vida. Os profetas mostraram que Deus queria vida, mais que culto. Os textos mais notáveis são Isaías 1.13-18, 58.3-11, Amós 5.21-24 e Malaquias 1.10, onde Deus prefere que se fechem as portas do templo do que lhe ofereçam um culto desvinculado da vida. Pelo discurso repetitivo e chato do pessoal que “ministra corinhos” na Igreja parece que cantar é a coisa mais importante que podemos fazer. O texto de 1Samuel 15.22 deve soar como alerta para nós. Deus prefere obediência ao culto.

5. FALSOS PROFETAS – Houve muitos falsos profetas em Israel. Os mais conhecidos foram os 450 profetas de Baal e os 400 profetas de Asera (1Rs 18.19) que entravam em transes ao profetizar (1Rs 18.26-29). Acabe também tinha 400 profetas falsos (1Rs 22.6), bajuladores, que falavam o que lhe agradava (1Rs 22.11,12,22,23).

Jeremias reclamou, com dureza, dos falsos profetas de seu tempo (Jr 5.31; 8.10-12; 14.13-15; 23.9-40; 27.9-16; 28.8,9. Também Ezequiel levantou sua voz contra estes falsos profetas que não falaram por inspiração de Deus (Ez 12.27,28; 13.2-9,17-23).

O falso profeta foi bem caracterizado nas instruções contidas em Deuteronômio 18.15-22 e Dt 13.1-5. Observamos que:

1) Ele devia falar em nome de Deus, não de outros deuses (Dt 18.20).

2) Sua profecia tinha que se cumprir detalhadamente (Dt 18.22).

3) Ele não podia se aproveitar do cumprimento de sua profecia para induzir os ouvintes a se rebelarem contra Deus (Dt 13.2-3). Sua palavra deveria estar em harmonia com a de Deus (Is 8.19-20). Isto é importante para nós. O padrão para se avaliar se um profeta é de Deus é a sua lealdade à Palavra de Deus. O ensino do profeta tem ser subordinado e avaliado pela Escritura. Ele não pode ir além dela nem contraditá-la. A Bíblia é o padrão para se julgar qualquer ensino tido como profético. Quem fala um milímetro fora da Bíblia é mentiroso. Deus já falou pela Bíblia e ele não se contradiz.

ALGUMAS APLICAÇÕES PARA NOSSA VIDA

1) Vemos a situação dos pagãos, que desprezaram Deus e foram por ele desprezados, como Paulo mostra, em Romanos. Não tendo a voz de Deus, foram ouvi-la em árvores, figados de animais e sonhos após drogas. Sem um Deus que se revela, a humanidade está absolutamente desorientada. Graças a Deus, ele nos falou, e falou, por fim, em Jesus (Hb 1.1-2).

2) Profecia não é adivinhar. É falar de Deus e de suas verdades. O verdadeiro profeta é aquele que mostra mais da pessoa de Deus para nossa vida. Porque na revelação contida nas Escrituras, mais do que fatos ou conceitos, Deus revelou-se a si mesmo. Por isso que Jesus disse que a vida eterna é conhecer a Deus como o único Deus e a Jesus Cristo como quem ele enviou (Jo 17.3). A revelação não é para ensinar curiosidades, mas para mostra que conheçamos a Deus.

3) A profecia é para lembrar o povo dos grandes atos de Deus e não para sensacionalismo e curiosidades, tipo “Será Saddam Hussein o anticristo?” e outras tolices das ficções escatológicas contemporâneas e das grandes agonias do planeta Terra. A avidez pelo sensacionalismo nunca se dá bem com o estudo bíblico sério e criterioso.

4) A profecia é para nos lembrar que vida é mais importante que rito e tradições. Nós nos esquecemos disto com muita facilidade e nos prendemos a formas, priorizando-as sobre a vida.

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